Blog

Reserva de emergência: quanto guardar

André Bain, Sócio ·

  • Reserva de emergência
Computador numa mesa de trabalho exibindo o diagnóstico da jornada financeira na plataforma da Mgmt

A maior parte das contas de reserva de emergência começa no lugar errado, porque começa na renda. Se você ganha R$ 15 mil e gasta R$ 8 mil, a reserva que te protege é construída sobre os R$ 8 mil. A pergunta que resolve o número não é quanto você ganha, e sim quanto custa a sua vida continuar funcionando por um tempo sem entrada de dinheiro.

Qual número entra na conta

O custo de vida essencial de um mês. Moradia, alimentação, transporte, saúde, escola, e as parcelas fixas que não param se a sua renda parar, como financiamento e mensalidade. Fica de fora o que você cortaria sem drama numa emergência: viagem, restaurante, assinatura, presente.

Esse valor quase sempre surpreende, para cima ou para baixo. Quem nunca somou costuma errar em 20% ou 30%, e o erro mais comum é esquecer as despesas anuais diluídas, como IPVA, IPTU, seguro e material escolar. Some as do ano e divida por doze antes de fechar o número.

Por quantos meses multiplicar

O multiplicador responde a uma pergunta prática: quanto tempo você levaria para repor a sua renda. É por isso que não existe um número único.

Renda estável, com vínculo formal ou concurso. Quatro a seis meses costumam bastar, porque existe aviso prévio, FGTS e seguro-desemprego amortecendo a queda enquanto você procura outra coisa.

Renda variável, como autônomo, sócio ou comissionado. Doze meses é a referência, porque a queda não vem com aviso e a recuperação depende de fechar novos contratos, não de ser contratado.

Dois fatores que aumentam o multiplicador nos dois casos. Dependentes, porque o custo essencial não se comprime. E dívida com parcela fixa, porque ela continua correndo exatamente quando a renda para.

Se você é sócio de uma empresa e é a única fonte de renda da casa, esses fatores se somam, e a resposta honesta está mais perto de dezoito meses do que de doze.

Um exemplo fechado

Uma família com custo de vida essencial de R$ 8 mil por mês, uma filha na escola e financiamento imobiliário em andamento.

Se a renda principal é de carteira assinada, o cálculo parte de seis meses: R$ 48 mil. O financiamento e a dependente empurram para oito meses, o que leva o número para R$ 64 mil.

Se a mesma família vive de renda variável, a base passa a ser doze meses, R$ 96 mil, e os mesmos dois fatores levam para algo perto de R$ 112 mil.

As premissas estão todas à vista, e é assim que a conta deve ser feita: trocando os seus números pelos do exemplo, você chega ao seu valor em cinco minutos, sem precisar de ninguém.

O que pesar antes de escolher onde deixar

Três critérios, nessa ordem.

Liquidez. O dinheiro precisa estar disponível em um ou dois dias úteis. Aplicação com carência, prazo de resgate longo ou venda dependente de mercado comprador não cumpre a função, por melhor que seja a taxa.

Oscilação. A reserva não pode valer menos justamente no mês em que você precisa dela. Isso exclui qualquer coisa cujo preço varie com humor de mercado, mesmo que a variação histórica pareça pequena.

Custo. É o critério que quase ninguém checa na reserva, e ele decide mais do que parece. Um fundo de renda fixa com taxa de administração alta pode consumir uma parte relevante do que a reserva rende, o que é particularmente ruim num dinheiro que existe para ficar parado. Vale conferir quanto você paga de taxa sem ver no extrato também nessa parte da carteira.

Um quarto ponto, que é de comportamento e não de produto: mantenha a reserva separada da conta do dia a dia. Dinheiro que aparece no mesmo saldo do cotidiano é gasto sem decisão.

Quando usar, e quando não

A reserva existe para o que não dá para prever e não dá para adiar: perda de renda, problema de saúde, um conserto que não espera. Esse é o teste, e ele é mais estreito do que parece.

Troca de carro planejada, viagem e reforma não são emergência, são objetivo com prazo, e objetivo com prazo tem outro tratamento e outro lugar na carteira. Oportunidade de investimento também não é emergência, por mais convincente que ela pareça no dia. Usar a reserva para comprar algo que caiu de preço é exatamente o movimento que ela foi construída para evitar.

Quando você precisar usar, use sem culpa: foi para isso que ela existe. Depois, tratar a recomposição como conta fixa no orçamento funciona melhor do que esperar sobrar, e vale refazer o cálculo em vez de repetir o número antigo, porque o custo de vida costuma ter mudado no intervalo.

O que vem depois que ela está montada

A reserva é a primeira camada de qualquer carteira, e ela tem uma função só: impedir que você precise vender um investimento de longo prazo no pior momento possível. Ela cumpre esse papel mesmo rendendo pouco, porque o estrago que ela evita é maior que o rendimento que ela deixa de dar.

Depois que o número está de pé, a conversa muda de assunto. O que sobra passa a ter prazo e objetivo, e é aí que faz diferença ter um plano em vez de um saldo.

Vale uma última observação, e ela vai contra o nosso próprio interesse comercial: se você ainda está montando a reserva, provavelmente ainda não precisa de uma consultoria de investimentos. Essa fase é de organização e constância, não de escolha de ativo, e nós dizemos isso na primeira conversa quando é o caso. O momento em que um acompanhamento começa a se pagar é quando já existe patrimônio investido e decisões que se acumulam.

Perguntas frequentes

A reserva de emergência tem que ser seis meses de salário?
Não. A conta não parte do salário, parte do custo de vida essencial, que costuma ser bem menor. E o número de meses depende de quanto tempo você levaria para repor a sua renda, o que muda bastante entre quem tem vínculo formal e quem vive de renda variável.
Posso considerar o FGTS como parte da minha reserva?
Só em parte, e só para um tipo de emergência. O FGTS fica disponível em situações específicas, como demissão sem justa causa, então ele amortece a perda do emprego e não serve para um problema de saúde ou um conserto urgente. Trate como um reforço para um cenário, nunca como a reserva inteira.
Quanto tempo leva para montar a reserva?
O tempo é o valor que você chegou dividido pelo quanto consegue guardar por mês. Se a conta der um prazo desanimador, o caminho costuma ser começar por um piso menor, como um mês de custo de vida, e seguir a partir dali, porque uma reserva parcial já evita boa parte das vendas no pior momento.
A reserva de emergência rende?
Aplicações de liquidez diária e baixo risco rendem, mas rendimento não é o critério de escolha aqui. Priorize o dinheiro estar disponível rápido e não oscilar, e confira o custo da aplicação, que numa reserva pesa mais do que parece.
Posso investir em outras coisas enquanto ainda estou montando a reserva?
Pode, e muita gente faz os dois ao mesmo tempo. O ponto de atenção é não deixar o objetivo de longo prazo consumir o que deveria estar protegendo o curto, porque é justamente essa combinação que leva alguém a vender um investimento na pior hora.

Continue lendo

Mgmt Consultoria de Investimentos e Educação Ltda. é uma consultoria de valores mobiliários que atua sob licença da CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Aviso: Conteúdo informativo e educacional; não constitui recomendação de investimento. Investimentos envolvem riscos e podem resultar em perdas. Leia os documentos regulatórios e busque orientação profissional antes de decidir.